Breve apologia à natureza.

Natureza que assopra meus pulmões, que sem pedir nutre minhas veias, que faz células vagarem por organismos, travando guerras silenciosas, fazendo de nós sujeitos, plateia e olimpo. Estamos mesmo todos sujeitos a ela, que tanto dá ao amigo quanto ao inimigo. Amiga da moléstia e do sorriso, que arranca toda vida desse pedaço de chão, que traça o começo, o meio e o fim.

Gaia, se sinto imensa felicidade pelo simples voar de um passarinho e extremo pesar pelas tragédias que vivo, o quão absurdo é tudo isso? Sinto que és mãe de tudo, do pássaro, da tragédia, da minha felicidade, que como todo o resto apenas acontece e só isso. Sem que nada em teu seio tenha o número ou o grau que em muitas de minhas preces eu já tenha pedido, enquanto relutava em ver que és o próprio sentido. L.C.M (original do dia 15/08/2018)



...

Lamento por escrever bem apenas quando... Lamento.
Peço desculpas por admitir apenas quando... Peço desculpas.
Omito por não querer que saibam de tudo quando... Omito.

Sonhos caídos

Que tormenta! Ver que os sonhos foram substituídos por imagens das desilusões. Escutar o eco da voz do ancião, pedindo ponderação ao menino sonhador, aparando suas asas com medo da queda do anjo em terra. O garoto que pensava ser a estrela do amanhã nutriu-se da árvore do conhecimento, coletou e saboreou os livros de sua cultura, mas agora apenas caminha em livrarias que vendem instrumentos da burocracia. L.C.M (original do dia 28/07/2018)

Bêbados II

Nas noites, nos becos, vielas e travessas os bêbados bambeiam, discursam para as paredes verdades eternas.

Luto por ter perdido a pureza.

Luto, por ter perdido a pureza!

Bêbados

O que foi dito bêbado foi pensado são.
Se não são os bêbados os mais lúcidos, quem são? L.C.M.

Sou só um homem. E o que isso quer dizer, afinal de contas? Para responder qualquer baboseira esotérica, chamem um xamã. Não, um xamã não; alguém mais inútil, quem sabe um pastor, daquele tipo que faz um bem danado. Ali, do outro lado da rua, um homem no chão, um homem de terno. Quem sabe ser homem é só saber usar pano para se cobrir e para se dizer de ali ou de lá. Homens, para que os quero? Quem disse que quero? Talvez seja isso, no fim das contas: se identificar com aquilo que mais odeia e que mais ama. L.C.M (original do dia 02/06/2018)

Vermelho

Após desbravar discursos turvos dos bravos laureados ocupantes das cadeiras enfeitadas de insegurança, deparei-me com o louco, o animal, e, como todo privado, gostei. Há tempos não via por estas bandas um pouco de sangue e, imaginem só, de repente, eu, um macaco perdido no cosmos, num verdadeiro deserto de vozes fantasmagóricas, encontrar um fragmento de vida vermelho. Doutos dos doutos, belos farsantes, onde estão os doutos das matérias mundanas? Daquele mundo que na infância vivi. Será que os doutos dos doutos, supérfluos como são, se aproveitaram da doutrina dos inocentes?

Se não se pode ver os sábios, apenas feiticeiros, só se trata de ambiente. Sei que, nas lacunas, como o sangue que por trás das palavras está encoberto, eles também estão, nutrindo-se daquilo que ainda é real.

E que a luta continue.

L.C.M (original do dia 02/06/2018)

Texto rápido sobre milagre (publicado inicialmente em 08/01/2018)

Milagres existem, mas não são as operações de um ente de natureza diferente da nossa. São muito menos uma coisa sem causa, e até podemos dizer que são indeterminados, mas apenas no sentido de que sabemos do nosso estado atual de ignorância.

Contudo, ainda não se pode dizer que o milagre é simplesmente o imprevisto, pois há imprevistos desastrosos. É necessário que seja aprazível para aquele que não prevê.

Podemos dizer que a vida de uma criança está repleta de milagres, pois operam sobre um mundo que ainda não conhecem e, por algum motivo, talvez filogenético, têm extremo prazer em observar novos eventos e funções.

Para um adulto, o evento e suas variáveis independentes podem ser de conhecimento antigo e já não se caracterizam como um milagre. A mágica só é mágica quando não se conhecem as causas do evento; além disso, ela pode perder a graça ou até ser aversiva se continuarmos a entrar em contato com ela constantemente.

Um cientista procura milagres, os descreve e analisa, para que não se tornem aversivos e possam dar acesso a novos milagres.

Por definição, o milagre não é previsível para uma pessoa ou comunidade específica, o que não significa que o evento seja indeterminado no sentido de que não há variáveis independentes das quais ele seja função. Também deve ser aprazível para os que não podem prever; o infortúnio do inimigo é um ótimo exemplo de milagre.

O contorno da silhueta de um urso em luz neon de um verde claro cativara a atenção de Timbete, que caminhava compassadamente com o olhar fixo na imagem que se destacava efusiva em meio ao breu da noite. Fazia parte da fachada de um bar, estilo cawboy norte americano. Parou diante da fachada a mirar o "urso", nada pensava,apenas observava. A noite era fria mas havia algum movimento de pessoas que passavam, entravam e saiam do "bar do urso". Timbete resolveu entrar; na verdade "Timbete" era um apelido que ganhou quando jogava capoeira com os amigos da favela do Fundão, chamava-se Augusto e vestia-se de jaqueta e calça jeans, mais parecido com os frequentadores do bar. Ao entrar dirigiu-se diretamente ao balcão e sentou-se num banco alto, uma banda de cawboys tocava samba. Continuava alheio ao barulho e movimento interno. O atendente do balcão que parecia conhece-lo perguntou o que iria querer, não respondeu, sequer parecia ter ouvido. O atendente observou-o por alguns segundos e o deixou em paz. Apareceu Toninho, um grande, gordo e velho amigo: e aí Timbete! Tudo bem?! Olhou para Toninho serenamente e nada respondeu. Alguém que estava com Toninho perguntou o que houve, Toninho respondeu: Deixa ele...e saiu. De repente levantou-se caminhando para fora, parou novamente diante do "urso de neon". Imagens de luzes coloridas, lembranças de rostos amigos, alegrias e tristezas bailavam em sua mente. Voltou-se em sentido contrário ao bar e pôs-se a caminhar, agora rumo a um pequeno prédio no final da rua, de onde, da janela do seu quarto atentara para o "urso". Ia chegando e algumas pessoas o aguardavam ansiosas...era sua família; mãe, pai, suas irmãs e uma amiga da família que havia posado lá. Clara, a amiga,antecipou-se rumo a Timbete com intenção de perguntar algo, mas foi segurada por uma das irmãs que disse: Deixa ele! Timbete subiu a escadaria, entrou em casa e foi para o seu quarto, mirou mais uma vez o "urso de neon". Sua família que o acompanhara, parou diante do quarto entreolhando-se um tanto aliviados, Clara, a amiga, olha para Tânia, uma das irmãs de Timbete e gesticula com as mãos como quem pergunta: o que está acontecendo?!!! Tânia responde: Ele é sonâmbulo!!!
- Hélio Antonio Manfredo.

Escrita ex-perímetral.

Firo o papel, com meu lápis tiro de letra, bang, o mineral encontra o papel vegetal. Escrita fluida é como água, é só para matar a seda, por isso a trago pra junto do meu café, combustível fácil de fazer ideia. Por vezes me perco, mas é assim que é escrever por escrever, per come por vezes tentadas, tentadas erradas e certeiras. Como as julgo? Por instintos que foram meus erros aos poucos que entenderam a melodia, fluindo como café em mim.

Fragmento de dia.

Prestes a se restaurar, o hábito de ingerir café se revela ao público pelo meu andar certo rumo à balconista. Meus passos são alguns dos muitos que precisei executar durante a manhã, a cadência respeita a moral do local, numa velocidade média as de muitas outras instituições.
Dois reais em metal são extraídos do fundo de um dos compartimentos da carteira, em seguida a fecho gozando do estralo do botão. A regularidade na mudança dos valores torna desnecessário averiguar a tabela de preços. Sobra-me tempo para conferir se sou eu ou o caixa quem recebe atenção. O caixa ganha e torna visível o motivo da segunda contratação, que me atende chamando por "moço". Peço o café e fito seus olhos cansados da vida, já mortos não me dizem nada, se não são seus gestos rumo a outra máquina, talvez eu repetisse o pedido. - L.C.M.

O texto segue a linha.

Só tu, medíocre, faz parte da trama!
É preciso ter valores para para ver o justo e o injusto,
compartilhar a luta fazendo uso da carne dos homens.
Não ser capaz de transcender,
não ser imparcial.
É preciso não saber o que se está fazendo,
matar o amado e se arrepender.
O que é o valor se não o choro ou o grito?
Todo resto é irrelevante, não há adiante quando tudo é caminho,
por isso estar fadado aos valores é o que faz o ser humano. - L.C.M.

Um sonho

Fito seu rosto pasmo.
Como pode ser real?
Algo gélido me sobe por dentro,
empurra meu coração pela boca.
Como pode ser tão real?
Minhas firmes pernas, agora trêmulas como as de quem acaba de alcançar seu sonho.
Aliás, se não um sonho, o que mais?
Como ela pode ser tão real?
- L.C.M.
(original do dia 30/09/2017)
Hoje pude ver como a verborragia virou ganha-pão, como o jargão dita o que é verdade e o que é mentira, como a superexposição do óbvio é o método mais seguro para manter determinada posição no faz de conta cotidiano.

Na verdade, o real é raro, e só aquele que compartilha do joguinho não é capaz de ver o desespero expresso em reação à dúvida legítima, aquela que desvela o autoritarismo mantido pelo discurso relativista bonitinho. Afinal, não é o poder hierárquico que persiste quando tudo é relativo?

E é assim que a banda toca: os conflituosos questionamentos sobre a veracidade ou utilidade do conteúdo são esquecidos pelas conversas ocasionais sobre a festa do fim de semana. Não há mais profundidade; tudo se baseia em aprender frases de impacto, que serão moeda de troca em ocasiões específicas.

É nesse sentido que me agrada ver o feio, o errado, o chato, pois me dá medo como as pessoas sempre se entendem e completam os comentários umas das outras. - L.C. M. (texto originalmente publicado no dia 06.11.2016)

Vaidade

Aplaudiram o sábio que admitia não saber.
A empatia com a ignorância admitida do sábio só mostra o quão sofisticada é nossa vaidade. - L.C.M
Reconheço o previsível quando dou conta do meu conhecimento, reconheço o imprevisível quando dou conta da minha ignorância, reconheço o aleatório quando aceito minha ignorância, defendo o aleatório quando ignoro minha ignorância. LCM.
Parto do que vejo e encontro a constância. O concreto não me ilude, permanece previsível, o contrário é coisa frágil e, como toda ilusão, precisa mostrar a concretude de minha ignorância. L.C.M. (publicado originalmente em 16/09/2017)