Fantasmas

 Você ainda pode sentir saudade? Ou a vida não tem sido amigável? 

Eu sei sobre o medo do vazio entre o agora e nosso passado. 

Eu sei sobre a vida. E eu só posso dizer que ela foi maior que nossas palavras. 

Seu fosse seu Jesus, eu seria capaz? Ou a vida não tem sido amigável?

Você sabe, sua decisão me entregou moedas que só podem comprar a culpa por sua crucificação ou o vazio de uma vida não amigável.

Por isso, esses fantasmas noturnos. 

Por isso, tantas versões dessa história de fantasmas.

Fantasmas, do outro lado, tão amáveis, nos matam com sua efemeridade.

E o meu corpo, pode suportar esse vazio? E seu corpo, pôde suportar?

Dói saber que a vida não tem sido amigável.

Um ponto

Você e sua razão, sempre nos reduzindo a pontos formados por suas coordenadas. Para existir devo ser seu x, y, z. Agora, de ponto a ponto, muito às vezes sou único, mas continuo sendo só um ponto do seu espaço absoluto. E lá fora, só o vazio. Lá fora, você devastou tudo com uma promessa.  Arrancou nosso espaço quando prometeu o mundo prometido. 

Viúva-Negra

Pense nas aranhas que teceram esse mundo.

Elas sabiam ou sempre esteve na sua natureza?

Agora, você me pede para que eu me doe.

Você sabia ou sempre esteve na sua natureza?

Sempre no centro da sua mobília, para me servir um chá, um encanto, um feitiço.

Para me fazer efêmero e fazer seu ato eterno. 

Daí nasci, vivi, fui traído e, portanto, morri.

Eu repito: você sabia ou sempre esteve na sua natureza?

Psicótico

Esquivar-se de si, ser psicótico.
Entenda que meu pranto é um tanto do meu canto que doía escutar.
Então deixe lá, nos fundos, naquele meu canto que vivo a evitar.
Você sabe por que eu repito?
Porque nunca me deixo terminar.

Manhã

O raio de luz revela a dança das gotículas de vapor. Tua pele dourada no sol matutino. A brisa é fresca e pura. Teu corpo é pura potência e o dia promete uma aventura. O dia ainda boceja e dá seus primeiros passos. Aprecia como quem acabou de nascer. É calmo e observador. O começo dessa orquestra. Você que esteve dormindo de baixo de seus cobertores, no útero, no princípio de tudo, num repente repete o ciclo da vida. Expandir é o destino minha pequena estrela. Nessa manhã posso te dizer que o destino em si é belo demais para que eu possa temê-lo. É, eu precisei esperar o sol nascer para te prometer novamente o que toda criança crê sem perceber e o que é corpo em essência. Não é o corpo a fé incondicional na vida?
Cantaremos uma música, falaremos nossa língua, faremos amor repetidas vezes, lutaremos em nossas batalhas e comemoraremos com nossos inimigos no céu. Hoje, no fim do dia, iremos nos cobrir de todas as memórias desse dia, fecharemos os olhos e repetiremos o ciclo da vida.

Tabu

Ingenuidade minha achar que os problemas do mundo não estavam no berço. Tudo que te oprime e te falta só reproduz o ninar da infância. Ser livre é possível? Se sou as próprias cordas que me amarram. De laço em laço me embaraço.

Sei lá

Entre a gélida brisa noturna e o calor do meu coração, anseio por tua ternura, teu toque, teu cheiro, tua mão.
Só sei que para cada canto da rua dei lembrança tua na esperança de em teu seio morar.
E será que eu nunca havia notado os pequenos sons do teu fazer? Macios como a cama que me deito em sonhos. Detalhes, resquícios, relíquias que inundam meu ser.

Toma

Cai na rua seu crânio quebrado,
nem credo, nem crack,
sintoma não mata.
Sim, toma de graça a falta,
a causa de tanta desgraça.

Ponto

Pro trampo
um tanto tonto
de pouco sono
Espero pronto no ponto
Se o passe
não passa,
um impasse.
Peço ajuda,
prece ajuda,
velho ajuda
e eu passo.
E é tanto trabalho a troco de trapo
e, se já não bastasse,
vai que bato,
vai que caio,
mãos ao alto,
um assassinato,
o meio fio.
Afinal, o fim a troco de nada.

Como você.

Nasci aceito
Já você, vocifera por ser.
Pratico o implícito.
Impelido a desejar como você.
Não nego e desfruto.
Vai ver eis aí meu absurdo.
Caçar a fêmea,
achar a fera.
Achar suas presas,
querer você.
Instinto ou admiração?
Não sei se desejo a tua carne no cio
ou se admiro tua caçada.
Só sei que também sou sua presa.
Imagino, como você.

PT

PT, a puta, julgada suja por quem desfruta de sua caridade. Geni, minha Geni, de lá do zepelim gigante descerá o general, que poucos sabem que sofre da mesma peste que impregnou seus órgãos íntimos, após deitar-se com meia duzia de urubus e morcegos. Muitos gritarão para que joguem as pedras e dessa vez será o messias que jogará a primeira, será transmitido pelo seu próprio canal de tv. Recordemos o que previ!

Fantasmas que habitam meu coração

Sob a luz do luar, vagando em minhas fantasias, estão as damas da noite, exalando o perfume das flores carnívoras. Cabelos emaranhados contendo a riqueza das formas, silhuetas banhadas pelo meu olhar infantil, mulheres e seus jeitos, penetram-me, dão-me vontade de tê-las nos braços. Mas como sustentar o intangível? Sou experiente, são fantasmas, são elas o pedaço de mim que mais ama o pedaço daquelas, que ao contrário destas são reais.

Prof. Mentalismo.

Na tua prova não tem meu nome. Não escrevi. É que só escrevo certo por linhas certas, não me alinho a métricas de títulos indignos das fontes que li. Reli relíquias, desfiz charadas, minhas fontes são grandes e claras, são os raros crivos encontrados em sebos, corrigem as múltiplas escolhas do teu mesmo erro.

Rosa

A musa nua, mulher despida, ferida a gosto. Belo gosto. Há um tanto de história por trás da carne, que mostra que é vida encarnada, o fruto da flor e também a seiva que banha este velho.

Moça que já foi menina, conta-me um tanto do teu bairro, das aventuras, do céu que te alegra, daquilo que melhor te cerca.

Por dentro desses galhos velhos, espero tua seiva, para que cresça a mesma rosa do teu bairro, das tuas aventuras e do teu jardim.

L.C.M (original do dia 13/10/2018)

Antropofagia

Enfiaram-me um mundo pela goela; engoli tudo até dar conta de mim. Deparei-me com o fato de que nunca havia chegado e que aqui estava; então cuspi. Cuspi palavras, restando a língua, assim como no início era a variabilidade, surgiu o verbo como o vômito dessa antropofagia. Tendo dito isso, edito-me e assim tenho dito o que sou: o homem da frase, a frase do homem, o discurso que diz o curso do meu dizer, diz quem sou e como soo. L.C.M 1(original do dia 03/10/2018)

Breve apologia à natureza.

Natureza que assopra meus pulmões, que sem pedir nutre minhas veias, que faz células vagarem por organismos, travando guerras silenciosas, fazendo de nós sujeitos, plateia e olimpo. Estamos mesmo todos sujeitos a ela, que tanto dá ao amigo quanto ao inimigo. Amiga da moléstia e do sorriso, que arranca toda vida desse pedaço de chão, que traça o começo, o meio e o fim.

Gaia, se sinto imensa felicidade pelo simples voar de um passarinho e extremo pesar pelas tragédias que vivo, o quão absurdo é tudo isso? Sinto que és mãe de tudo, do pássaro, da tragédia, da minha felicidade, que como todo o resto apenas acontece e só isso. Sem que nada em teu seio tenha o número ou o grau que em muitas de minhas preces eu já tenha pedido, enquanto relutava em ver que és o próprio sentido. L.C.M (original do dia 15/08/2018)



...

Lamento por escrever bem apenas quando... Lamento.
Peço desculpas por admitir apenas quando... Peço desculpas.
Omito por não querer que saibam de tudo quando... Omito.

Sonhos caídos

Que tormenta! Ver que os sonhos foram substituídos por imagens das desilusões. Escutar o eco da voz do ancião, pedindo ponderação ao menino sonhador, aparando suas asas com medo da queda do anjo em terra. O garoto que pensava ser a estrela do amanhã nutriu-se da árvore do conhecimento, coletou e saboreou os livros de sua cultura, mas agora apenas caminha em livrarias que vendem instrumentos da burocracia. L.C.M (original do dia 28/07/2018)

Bêbados II

Nas noites, nos becos, vielas e travessas os bêbados bambeiam, discursam para as paredes verdades eternas.